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Resolver conflito entre dois membros do time tentando decidir quem está certo ignora que, na maioria das vezes, o problema é o processo que colocou os dois nessa disputa

Foto: Quilia / Unsplash

Liderança

Resolver conflito entre dois membros do time tentando decidir quem está certo ignora que, na maioria das vezes, o problema é o processo que colocou os dois nessa disputa

Pedro Toledo · 4 de agosto de 2026 · 5 min de leitura

Resolver conflito recorrente entre dois membros do time investigando qual dos dois está certo e qual está errado ignora que, na maioria das vezes, o atrito real vem de um processo mal desenhado que coloca os dois em disputa pelos mesmos recursos, pela mesma decisão ou pela mesma responsabilidade sem definir critério claro. Por que investigar culpa individual resolve o sintoma e não a causa, como identificar quando o conflito é estrutural em vez de pessoal, e como redesenhar o processo pra que a disputa pare de se repetir.

Uma das habilidades mais citadas quando se fala em liderança é saber mediar conflito dentro do time — ouvir os dois lados, entender a posição de cada um, ajudar a chegar num consenso. Só que essa abordagem parte de uma suposição que nem sempre é verdadeira: que o conflito é sobre as duas pessoas envolvidas, quando muitas vezes ele é sobre o processo que colocou as duas nessa posição de disputa.

Resolver conflito entre dois membros do time tentando decidir quem está certo ignora que, na maioria das vezes, o problema é o processo que colocou os dois nessa disputa. Investigar culpa individual resolve aquele episódio pontual, mas deixa intacta a condição estrutural que vai gerar o próximo atrito parecido, com as mesmas pessoas ou com outras que vierem a ocupar essas posições depois.

O que é um conflito estrutural

Um conflito estrutural acontece quando duas pessoas disputam algo — prioridade, recurso, decisão, responsabilidade — porque o processo que rege essa disputa não define com clareza um critério objetivo. Duas pessoas de áreas diferentes que dependem do mesmo recurso limitado, sem uma regra clara de prioridade, vão entrar em atrito regularmente — não porque uma delas está errada, mas porque o processo não resolveu antecipadamente o que acontece quando os dois precisam da mesma coisa ao mesmo tempo. Trocar as pessoas envolvidas nesse cenário não elimina o conflito, porque a próxima dupla que ocupar essas mesmas posições vai enfrentar exatamente a mesma disputa.

Por que apurar culpa não resolve

Quando um líder investiga um conflito perguntando quem estava certo, ele está tratando o problema como se fosse uma questão de julgamento — como se bastasse identificar o lado com razão pra resolver a situação. Isso funciona quando o conflito é genuinamente pessoal. Mas quando é estrutural, apurar culpa produz um vencedor e um perdedor num episódio específico, sem tocar na condição que vai gerar o próximo atrito parecido. Pior: a pessoa que "perdeu" aquela rodada de julgamento carrega o ressentimento de ter sido responsabilizada por um problema que, na origem, não era dela.

O sinal de que o conflito é estrutural

O sinal mais forte de conflito estrutural é a recorrência com um padrão parecido — se o mesmo tipo de atrito aparece repetidamente, seja com as mesmas duas pessoas, seja com outras que ocuparem essas mesmas posições depois, isso indica que o problema está no desenho do processo, não na personalidade de quem está envolvido no momento. Um episódio isolado de atrito pode genuinamente ser pessoal. Um padrão que se repete com trocas de pessoa no meio quase sempre é estrutural.

Como redesenhar o processo

A forma prática de resolver conflito estrutural é tornar explícito o que hoje está implícito — definir com clareza quem tem autoridade final sobre qual tipo de decisão, em que ordem os recursos compartilhados são alocados quando há disputa por eles, e onde termina a responsabilidade de uma função e começa a da outra. Isso remove a ambiguidade que hoje é preenchida, toda vez, por interpretação individual — e é justamente essa interpretação divergente que gera o atrito repetido. Isso tem uma relação direta com comparar publicamente o desempenho de dois membros do time — em ambos os casos, uma estrutura mal desenhada (seja de comparação, seja de prioridade de recurso) empurra pessoas pra uma disputa que elas não escolheram e que um ajuste no desenho resolveria de forma mais duradoura.

Quando o conflito é mesmo pessoal

Existe conflito genuinamente pessoal — gerado por incompatibilidade real de estilo de comunicação, de valor ou de forma de trabalhar entre duas pessoas específicas, sem nenhuma disputa estrutural por trás. Nesse caso, mediar a conversa entre os dois é o caminho certo. A diferença prática é que, antes de assumir que é esse o caso, vale investigar se existe uma causa estrutural escondida atrás do atrito — porque tratar como pessoal algo que na verdade é estrutural garante que o mesmo tipo de conflito volte a aparecer, só que com outras pessoas na próxima vez.

Um exemplo prático

Dois gerentes de área brigam recorrentemente sobre qual projeto tem prioridade sobre o mesmo time de suporte técnico compartilhado. O líder direto media cada episódio individualmente, ouvindo os dois lados e decidindo caso a caso quem tem razão daquela vez. O atrito volta a aparecer semanas depois, com um projeto diferente. Só quando o líder define uma regra explícita de priorização — por exemplo, projeto com prazo de cliente externo tem prioridade sobre projeto interno, salvo exceção formalmente aprovada — é que a disputa recorrente desaparece, porque o critério deixou de depender de interpretação individual a cada novo caso.

O ponto central

Antes de mediar o próximo conflito entre dois membros do time investigando quem tem razão, vale perguntar se existe um padrão de recorrência por trás daquele atrito específico. Se existir, o problema provavelmente não é das pessoas envolvidas — é do processo que não define com clareza a prioridade, o recurso ou a responsabilidade que está sendo disputada. Redesenhar esse processo resolve de forma mais duradoura do que apurar culpa episódio por episódio.

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